Monstruosidade

Monstruosidade – pode estar no humano ou no imaginário (o monstro propriamente dito)

Pessoas anormais extrapolam a idéia de monstro – tudo o que escapa da norma da Natureza: o louco, o hermafrodita, o tirano (aquele que não respeita o poder soberano)

Monstro – um outro Homem que não é o Homem

Minotauros – Status de Monstro – a partir da Psicanálise passa a ser a representação da criança sem afeto

“Existe monstruosidade somente onde a desordem da Lei Natural vem tocar e inquietar o direito (…)  A desordem da Lei Natural transtorna a ordem jurídica (?) e aí aparece o monstro” – Foucault

Por que hoje é difícil ver o filme homem-elefante e no século XIX não? O mesmo ocorre em relação à irmãos siameses. A reposta: porque eles não eram considerados humanos, por isso podiam ser expostos em feiras para a visitação, e, em vez de horror despertavam curiosidade e, no máximo, espanto.

Quando o monstro se humaniza, sua exposição se torna constrangedora

Quando a figura do monstro some, ela migra para a esfera do humano

A partir de 1950, há no cinema uma proliferação de monstros

Quando o monstro entra na norma, o inconsciente fala por meio do corpo

Caso Agostine  = deixa de ser monstruoso e passa a ser clínico – o corpo se torna mais do que nunca algo que não é dominado – ataques – atitudes anormais – mistura típica de História da Monstruosidade e Pornografia – inaugura-se um novo tipo de olhar – entre observação científica e resquícios do olhar voyeur

Outro caso de fora da norma: os Irmãos Tocci (nascidos em 1978) – irmãos siameses – ficaram ricos, pois além de despertar curiosidade com sua bizarra figura, causavam risos, eram humoristas

Nós nos tornamos uma sociedade muito séria porque humanizamos tudo

A HISTÓRIA DA MONSTRUOSIDADE É MUITO AMBIVALENTE

Até a segunda guerra mundial – havia o zoológico humano onde se expunham esquimós, africanos, povos exóticos – uma das diversões da família burguesa era ir a esses zoológicos

Antigamente, escravos eram obrigados a fazer lutas e rituais de sua cultura

Tese central – O zoológico humano acabou porque ficou cada vez mais comum  esse público fazer turismo na savana africana – o turismo de massa nasce na década de 1950

MUITO DIFÍCIL VER O OUTRO COMO OUTRO

Escabroso = exótico do outro como animal

Filme: “Vênus Negra”

Os monstros anormais viram objeto de ciência

“Um Artista da Fome” – é um conto de Franz Kafka publicado no Die Neue Rundschau em 1922.

O protagonista é um arquétipo de Kafka, um indivíduo marginalizado pela sociedade. A história retrata a vida de um artista há tempos esquecido, o jejuador. Ter o poder de ficar dias a finco sem colocar em sua boca uma misera migalha de alimento, era a grande façanha na qual rodeava a vida daquele artista. Kafka expõe com essa obra a fragilidade humana frente à evolução social e mostra o quanto ínfima pode se tornar nossas maiores habilidades. (Wikipédia)

Filme: “Não Me Deixe Jamais”

O imaginário da monstruosidade perdeu esse viés de espetáculo

A Imprensa durante a Primeira Guerra Mundial usou e abusou da fotografia em suas reportagens sobre a guerra – conjunção de fatores capazes de mostrar a desfiguração humana com seus corpos estilhaçados  na guerra – mostra isso nos jornais – havia um certo prazer em mostrar essas fotos – bombardeio dessas imagens nos jornais durante os anos de 1914 – 1915 – 1916

Nova Objetividade – movimento artístico – figura humana se desfigura – Arte entre Guerras da Alemanha – dizimado com o Nazismo

Prostituição é a regra – quadro das prostitutas – próximo do diabólico, monstruosidade, imaginário soturno, noturno, degenerado, degradação moral:

Várias conseqüências: Nazismo = raça pura / Hollywood = beleza perfeita, saúde perfeita

Nasce nesse período do entre-guerra a figura do vampiro repugnante

Filme: “Nosferatu” – 1922 – O vampiro era asqueroso – Arte Expressionista – terror – monstruoso anormal ainda é o “outro”, ou seja, tem algo de ativo que pode me assombrar, algo que eu não domino – Minotauro: algo sobrenatural que eu não domino e que me atrai

Ler: “História do Feio” – Umberto Eco

Filme: “Gabinete do Dr. Caligari” – Embaralha as figuras de quem é monstro e quem não é, quem é louco e quem não é – O final é absolutamente contemporâneo

O Homem de preto é robot? não é robot? O fato é que ele pega a mocinha

NÃO HÁ MONSTRO SEM A MOCINHA – imaginário muito antigo da atração entre mal e bem e o monstro que rapta o bem, que geralmente desmaia ao ser raptado – paralelo com as Vestais, as virgens sacrificadas

– Meados do século XX – Depois da Segunda Guerra – feiras e zoológicos começam a ser proibidos – só em 49-50 eles desaparecem – fim da exposição dos monstros em detrimento de seu sucesso crescente nos cinemas

Ler  “História do Corpo Volume III” – Jean Jacques

Irmãos anões judeus (não anotei os nomes) – expostos em feiras – vão para campo de concentração – sobrevivem – escrevem memórias – escrevem filmes de terror – ficam ricos!

Menguele matou pouco – os judeus que colaboravam com seus experimentos sobreviviam, eram “protegidos” (com todas as aspas!)

Imagens de Auschwitz – corpos próximos do cadáver – exposição bombardeante através de fotos e filmes – não se quer mais ver essas imagens – saturação – a imagem da degradação física humana supera a monstruosidade antiga

Quando na realidade algo é impossível ele explode na fantasia

No cinema os monstros se proliferam

Monstros marítimos

O outro não assusta mais

1953 – cinema – seres espaciais/macacos/seres marinhos se misturam

Imaginários da Guerra Fria

3 versões de King Kong – primeira – 1933;  última – 2005 – vemos a diferença entre os dois na famosa cena em que o King Kong segura a mocinha na mão: no primeiro, a mocinha está desmaiada; no último a mocinha está tranqüila, confortavelmente sentada na palma da mão de um macaco gigante de olhar humano e cheio de ternura

E. T. de Steven Spielberg = primeiro monstro com olhar humano – monstro humanizado – é o fim do “outro” (aquele em quem eu não me reconheço), o monstro, também no cinema

Versão teatral de Drácula produzida por Horace Liveright em 1927, com Bela Lugose no papel título – inaugura o Drácula sensual

Idéia do vampiro é utilizada também por Karl Marx, como metáfora do capital, em “O Capital”

Filme “Franknstein”, 1931, com Boris Karloff –  o híbrido que não deu certo: monstro que mostra o processo pelo qual passou para se tornar monstro

O Drácula não – o Dracula já aparece monstro – equivale à maldade como é – aquela que usa capa, se esconde

Freaks: “A Mulher Barbada Tem Um Bebê” – Raça anormal – Presente nos discursos de Roosevelt

– O “outro” no Homem – Monstro Clássico da Antiguidade sai da mitologia dos adultos e vai aparecendo no universo infantil

“La Féline” (Cat People) – 1942 – espeécie de Lobisomem – grande receio de se desumanizar  e virar animal

Cat People – música de David Bowie

http://www.youtube.com/watch?v=YWX_MFNOL_Y&feature=related

Por que há entre nós esse fascínio do animal se transformar em humano e vice versa?

Monstruosidade física de uns revela a feiúra moral de outros

Filme – “A Aldeia dos Malditos”, 1960, Wolf Rilla – perfeição física – nasce do nazismo – idéia de raça pura

Livro: “O Tambor”

A Bela e a Fera / A Jovem e a Velha – 1937

– A MORAL BURGUESA

Surge no século XIX e se intensifica em meados do século XX, em 1950 – AMERICAN WAY OF LIFE – exportado para o mundo, mas só se inflitra na Europa na década de 1980, por causa da guerra, há uma situação delicadíssima e profunda na lida moral da sua intimidade – constrangimento e humilhação, por exemplo: O homem derrotado volta da guerra e encontra sua mulher com 4 filhos surgidos de estupros e/ou da prostituição à qual teve que se submeter para conseguir sobreviver. Portanto, todo o moralismo americano chega a ser uma afronta para essa família, já que há o esfacelamento moral herdado da guerra.

EUA – Os monstros são humanos: são doentes, velhos, carcomidos pela maldade – aparecem nos desenhos de Walt Dysney

Bruxa de Branca de Neve é um duplo de Eva e sua maçã – Branca de Neve é uma figura controversa, com alusões à raça pura proposta pelo nazismo

Ao longo do século XX, e mais intensamente a partir da década de 1950, tivemos uma higienização dos crescente dos  monstros e hoje só há estórias adocicadas

Foram abolidos o medo e a aversão ao monstro

Monstro foi abolido da fantasia

Na década de 1960 a figura do Diabo tende a desaparecer – através das drogas alucinógenas, o Diabo passa a ser uma coisa experienciável e o mal passa a ser uma experiência necessária

Filme: “O Bebê de Rosemary”, 1958 – Polanski – mal na maternidade – Duplo da Virgem – Absolutamente inadmissível  na sociedade

Lobo Mau  = Pedofilia – Lobo Mau que vira gente – todos os pecados ao mesmo tempo!



Geração saúde da década de 1980, nasce na rabeira da contra-cultura – Madonna é seu ícone

Em 1950 – A NORMA E A DESMEDIDA – mudança de tamanho, das proporções – saem da escala do humano – monstruoso

Filmes:

“O Incrível Homem que Encolheu” – (“The Incredible Shrinking Man”, EUA, 1957, dir.: Jack Arnold)

“The Amazing Colossal Man” – 1957 – directed by Bert I. Gordon

“Attack of the 50 ft Women” de Nathan Juran, 1958 – aqui a amante é má e a esposa é vítima

Idéia da desmedida – encontrar a latitude humana

Mais recentemente o monstro adquire face e alma humanas

– O CIRCO DA CIÊNCIA

1958 – “Twilight Zone” – aqui coloco um trechinho só pra dar curiosidade:


1960 – “O Olho do Espectador” – (?)

Mulher muito feia faz cirurgia plástica e depois não se reconhece

Aqui ainda tem o viés da fatalidade, que vc não escolhe

Depois de 1960 – Artes Plásticas começa a explorar as transformações do corpo através da tatuagem e cirurgias – cria monstros humanos – aqui a monstruosidade é uma escolha – escolha de outra natureza – escolhas voluntárias, desde transgênero até homem leopardo

A sociedade conta com a escolha – é intolerável hoje que sejamos sucumbidos pela Natureza

Guerra Fria – Vende-se a idéia de que os russos não têm alma, comem criancinha; que chineses têm gosto alimentar estranhíssimo; que comunista é mau, não civilizado, é bobo  – misto de atração e repulsão

Nos filmes os russos são os inimigos os alienígenas quando aparecem sempre são abordados no coletivo, se o filme mostra o planeta do alienígena e sua sociedade, esta é sempre estatal, muitas ‘pessoas’ juntas trabalhando – idéia que americanos tinham do comunismo

A compensação, por não viver o Comunismo – ele ocupa o imaginário – animais alienígenas – máquinas – trabalhando no coletivo -empresas estatais – máquinas enormes

Dr. Smith de “Perdidos no Espaço” é um russo infiltrado, ele é do mau e ele é que tem o robot (primeiro robot humanizado no cinema), é obcecado, obsessivo, meio débil, meio bobão

– Final da Guerra Fria

Surgem também os filmes em torno do da transformação do ser humano em animal

Filme “A Mosca” 1958 – Ficção científica e horror

Hoje é uma monstruosidade que nem o dizível tem mais – hoje ela é a doença, incluindo a obesidade mórbida

Não é a monstruosidade do sagrado nem que nos dá medo, o sentimento provocado é o de pena

Quando não conseguimos mais identificar o monstro

O monstro atrai – tem algo mais que o humano – atração é característica do monstro desde sempre – belo, forte, imortal,  homem/bicho, etc. – o monstro vai perdendo esse duplo medo/atração – será que temos monstros hoje em dia? – talvez ele seja o próprio homem

Filme “Avatar” , James Cameron, 2009 – neste filme o humano exaspera – o que é monstruoso é o homem paralítico, aquela perna

1970 – Descobrem o Genoma

2001 – ele é codificado – descobre-se que temos genes com o mesmo funcionamento do da mosca e o do verme, e que a salamandra tem o genoma mais complexo que o nosso

1981 – Peter Singer defende a ecologia radical – oa animais e nós somos muito mais próximos do que supunhamos – vegetarianismo é a única dieta aceitável

Nova etapa para pensar os animais – “Avatar” é muito possível na fantasia do projeto genoma

Transgênicos

Mundo científico – humano – fabricação das quimeras, monstros

do pedófilo ao paciente terminal – esses são exemplos de nossos monstros – assustam e amedrontam

Filme: “Salò ou os 120 dias de Sodoma” de Pasolini, 1975

Hoje teme-se mais a degeneração física do que a própria morte

Necessidade de uma política da indiferença

Foco no corpo – obsessão pelo corpo – não há pobreza maior que pensar no próprio corpo – o escravo só tem o corpo, é esse fato o que caracteriza a idéia de escravidão

5 horas por dia hoje dedica-se ao corpo – grande perigo hoje – o nosso corpo é o nosso grande problema

Livro: “Bio Poder”, de Foucault

Monstro como monstro não pode morrer

Uma maneira de resistir é esquecer o corpo

Sindrome de campo de concentração – lá você só tem o corpo

Retirar o corpo do centro da política

Desdramatizar = tirar o drama – hoje o corpo é muito sério

História da sexualidade

Escravidão do corpo – traiçoeiro – o corpo é frágil, passageiro, provisório

Poder sobre o corpo gera um desejo pelo corpo – a vontade de saber

Solidão atroz a dos doentes terminais – só têm o corpo – todo o foco de tudo e todos é seu corpo, quando ele quer focar em outra coisa – parar de pensar naquele corpo morrendo – revelador de sua impotência máxima

A nossa sociedade nos impele a isso

A monstruosidade já está dentro de nós = eu e meu corpo

Nossa sociedade está envelhecendo, deve-se investir no social e desfocar do corpo [(Wladimir – (?)]

Hoje a Psicanálise da mais clássica já é desfocada

O íntimo não existe sozinho

Esquisoanálise/heterônimos – viver outras coisas, de outra maneira

Bulling/Chacota é cruel, mas mais cruel ainda é ser alvo de piedade (falamos no rodeio de gordas que aconteceu recentemente na universidade)

Festas populares típicas, como o carnaval, a malhação de judas, por exemplo – momento de compensação através de muitas brincadeiras politicamente incorretos – isso fazia parte da tradição e está deixando de existir

Onde colocar isso? Antes eles tinham um lugar e agora se tornaram excessos sem sentido

FIM DO CURSO snif… snif…







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