segundo ko murobushi

    No kabuki antigo, os corpos no início eram inclinados, não eram perpendiculares e planos, não eram naturalistas. Existia uma posição inclinada que ainda não encontrou uma formalização e essa busca pela formalização é que é a dança verdadeira.

    No butoh também, quando se começa a dançar o butoh busca-se algo e é essa busca que é genuinamente butoh.

    Eu não concordo com a sistematização do butoh, não acho que ela exista, pois o butoh é busca por uma formalização mas não é a forma, quando chega-se à forma, foge-se do butoh.

    A velocidade de tudo aumentou com a Internet e o corpo acaba se esbarrando no problema da medicina. Se trocamos o coração no transplante, já já poderemos trocar nossa memória. A cultura se modifica, o ser vivo se modifica. Não concordo que seja só o corpo japonês que dança butoh ou que o corpo japonês é o corpo ideal para se dançar o butoh.

    Acredito que carregamos nosso próprio corpo, independentemente de sermos jovens ou idosos, orientais ou ocidentais. É como aqueles dois estudantes que vão à mesma escola, são da mesma idade, frequentam a mesma classe, os mesmos colegas, só que um deles vai alegre e saltitando para a escola enquanto que o outro se entristece, se aquieta, quer faltar, chora e se amua. Quando o corpo não quer ir, temos que encontrar um meio de carregar esse corpo e levá-lo adiante, porque temos que ir para frente.

    Eu sou um tipo de pessoa que carrega o corpo. Uma pessoa leve que pesa 50 kg, quando perde um amor, fica como uma pessoa que pesa 150 kg, ela não consegue se levantar. O butoh é isso: temos que levantar esse corpo que não quer mais se levantar.

    Há um bloqueio de movimentos e aí se forma uma doença. Qual o limite do que é considerado uma doença? Andamos normalmente, com saúde, mas existem vários tipos de andar. Carregamos nosso corpo mas cada um anda diferentemente e dependendo das circunstâncias esse movimento já é dança. Eu pergunto: será que o peso que temos não é uma ficção?

    Nos workshops eu peço que andem como se estivessem voando no céu. E as pessoas executam algo que é uma falha, ou uma troca de canais de percepção, e não uma fantasia. Existe em quem dança o poder de influenciar os outros que estão presentes vendo. A dança é o poder de influenciar quem está vendo.

    O que se precisa para dançar butoh? Dançar butoh é fazer um acontecimento, produzir um evento ou uma notícia. Todo dia nós estamos morrendo. Quando somos bonitos, ou melhor, tornar-se bonitos ou crescermos bonitos quer dizer que já temos a morte dentro de nós, que já estamos indo em direção à morte. O dente cai, o cabelo cai, perde-se um pouco do corpo todos os dias.

    O problema da doença se torna uma surpresa para si próprio, surpreender-se a si próprio é uma nova forma de vida e se estamos surpresos seremos capazes de surpreender. Fazer o acontecimento significa viver.

    Não precisa ser um susto enorme. São surpresinhas. Quando acontece isso conseguimos carregar nosso corpo quando ele não consegue mais andar. Essa é a surpresa! E é aí que mora a dança.

    Butoh é tentar carregar o corpo que não quer levantar e se surpreender nesse período, criando um evento, um acontecimento.


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Sobre patrícia noronha

artista pesquisadora da dança e do teatro, integra o corpo docente do departamento de artes corporais DACO/IA/UNICAMP, integrou por 16 anos o corpo docente do departamento de artes cênicas CAC/ECA/USP, dirige a cia. patrícia noronha PANAPANÁ dança e teatro.
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Uma resposta para segundo ko murobushi

  1. Sofia disse:

    Já tenho muitas saudades das manhãs de quinta-feira e dos poucos mas marcantes serões de sexta. Estes textos fazem-me vive-las outra vez, de alguma forma!!! Beijooooossss

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